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sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Game Over.


  Aquela noite estava difícil do sono aparecer.
Elaine estava deitada na cama ao lado do namorado completamente adormecido. Ele sempre dormia antes dela, deixando-a sozinha com seus pensamentos – nem sempre muito felizes. Ela estava coberta com o edredom quase até o pescoço; fazia muito frio.
Luzes entravam pela janela e dançavam no teto. Elas produziam um efeito engraçado... Parecia que o teto tremulava como águas calmas após se jogar uma pedra nelas. Foi quando, de repente, as luzes se tornaram mais fortes, brilhantes. Elaine esfregou os olhos. O teto foi se dissolvendo aos poucos até ficar completamente brilhante; a luz era tamanha que ela, mesmo sem perceber, foi se cobrindo mais e mais, até que o edredom cobriu seus olhos e tudo o que ela via era o brilho intenso através do lençol florido.
E então tudo ficou escuro. 



Bem devagar, Elaine puxou as cobertas.
O teto era um espelho perfeito. Ela conseguia ver a si mesma na cama, deitada, observando seu rosto refletido assustado e com os olhos arregalados. Só que seu namorado do espelho estava acordado e a encarava com um sorriso no rosto (um sorriso meio safado ou será que era meio perverso?). Ela olhou para o lado, mas Evandro continuava dormindo a sono solto.
O casal do espelho segurava controles de videogame; o seu outro namorado não parava de jogar, o sorriso amplo no rosto, quase enlouquecido. A outra Elaine se aproximou do espelho – era como se estivesse se levantando da cama – e tocou a película que a separava da verdadeira Elaine. Naquele lugar, o espelho se desfez novamente como a água de um rio e, por ali, uma mão apareceu estendida.
Era a sua mão – Elaine logo percebeu. Estava pintada com o mesmo esmalte cor de laranja berrante que ela colocou por teimosia e o namorado reclamou tanto dizendo que ela parecia uma árvore de Natal.
Ela agarrou a mão estendida – não sabia por que. Será que era um sonho? Quando a gente sonha, faz coisas que não entende. Mas geralmente a gente não sabe que está sonhando. Ou sabe? Quais eram as regras de um sonho, afinal? Seu cérebro parecia geleia, mas o fato era que ela segurava a mão gelada da Elaine do espelho e parecia incapaz de soltá-la.
Sentia-se flutuar quando ultrapassou o espelho. Ele parecia água, mas só isso. Era geladíssimo, tão frio que Elaine sentiu o corpo todo tremer compulsivamente. De repente se viu sentada na sua cama, mas do outro lado, aquele que Evandro costumava dormir. Ele estava acordado.
- Pronta para jogar? – ele perguntou com um sorriso maníaco que não lhe pertencia. Não pertencia ao Evandro de verdade.
Ela olhou para o teto e viu a si mesma dormindo ao lado do namorado. O outro Evandro não esperou pela resposta – apertou o botão START e o jogo começou.
Só que era que Elaine controlava Evandro e Evandro controlava Elaine. Quando ela apertou o direcional para direita, viu o namorado se virar para o outro lado da cama. Ele ficou de frente para ela. O outro Evandro apertou um botão com um X. Elaine abriu os olhos. Meia-lua para frente e bolinha. Elaine colocou as mãos no pescoço de Evandro. Com horror, Elaine começou a apertar todos os botões ao mesmo tempo, exatamente como fazia quando jogava videogame com o namorado. O sorriso de Evandro se alastrou, um sorriso competitivo muito semelhante àquele de quando ele estava vencendo uma partida particularmente especial. Meia-lua para trás e quadrado. Elaine sufocou Evandro. X repetidamente. Evandro sem ar. Finalizando com bolinha e quadrado.
Evandro morto.
Elaine soltou o controle e abriu os olhos. O teto não era mais um espelho. Suas mãos não seguravam mais um controle. Tum, Tum, Tum. Seu coração batia depressa. Ela mesma parecia sem ar, assim como o Evandro do sonho – o Evandro que ela assassinara. Um nó se formou na boca do seu estômago e Elaine pensou que iria vomitar. Sempre ficava enjoada após ter um pesadelo ruim e aquele era especialmente horrível. Ela ainda sentia o peso do controle de videogame nas mãos e via o sorriso torto e ligeiramente doentio do Evandro do espelho dentro de sua cabeça. Mas o pior eram os olhos arregalados e a pele arroxeada do Evandro real.
Bobagem. Sonhos eram apenas uma bobagem da nossa cabeça, seria exatamente o que diria seu namorado no dia seguinte quando ela lhe contasse aquele sonho idiota. E então eles iriam rir e tomar café juntos na cama. Com bolo de chocolate, só para tirar aquele gosto ruim de sua boca. Teria que se lembrar de pedir a ele que comprasse o bolo no mercado quando fosse buscar o pão.
Foi pensando nisso que Elaine abraçou Evandro, tentando se recuperar daquele pesadelo, mergulhando, aos poucos, em um sono tranquilo.
Só no dia seguinte, quando acordou, notou que Evandro não estava respirando.

GAME OVER

21 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Karen Alvares, ficou muito bom. Uma história interessante e moderna, com um terror diferente do que estou acostumado, inovou. Introduziu o leitor no clímax e é isso que um conto faz, sem muitas delongas e apresentações, ficou perfeito. Ansioso pelo próximo.

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  3. Muito obrigada, Mauricio!
    Fico esperando sua visita nos próximos contos.
    Até lá! =]

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  4. Vou procurar fazer de tudo por vocês, realmente gosto do trabalho de todos. Espero que gostem do meu conto quando publicarem em fevereiro.

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    1. Estou ansiosa para ler seu conto! :)
      Obrigada pelo apoio!

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  5. Karen, Adoreeei o conto! Primeiro lugar, que nome LINDO o da protagonista (desculpa, não consegui segurar a piada!)
    Voltando ao tema principal, eu adorei o conto! Você uniu uma situação normal com algo "não-explicavel", o que faz exatamente com que o leitor sinta medo! E você usou o tema video-game de uma forma muito criativa.
    GAME OVER!

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    1. Um conto com videogame como tema tinha que ser com teu nome, né? rs :)
      Fiquei feliz que gostou do conto (sei que não é tua zona de conforto o terror). ^^

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  6. Menina que conto foi esse??? *.*

    Caaaaaaaaaaaaaara que agonia! Me lembrou minha mãe contando que meu pai quando era mais jovem às vezes tinha pesadelos e sonhava que estava salvando minha mãe de porcos e outros animais que queriam ataca-la e enquanto lutava com eles no sonho acertava chutes e cotoveladas nela na realidade kkkkkkkkkk

    Muito, muito, muito bom!!! Parabéns! AMEI o fato de colocar os golpes, os comandos dos golpes na verdade... É tipo Mortal Kombat... literalmente rs

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    1. Ahhhhhhhhhhh que comentário feliz e que me deixou tão feliz! Obrigada, lindona!!! Fiquei muito feliz de despertar todos esses sentimentos. :D
      Eu sou uma viciada em videogame, já tava na hora de fazer um conto inspirado nisso! rs Fiquei pensando no controle do Playstation ao escrever... :) Aliás, foi esse conto que a ideia veio literalmente olhando pro teto, como te disse! rs

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    2. Eu imaginei que era *.*

      Mas mto divertido! - é eu sou maluca, acho contos de terror divertidos. Eu era fanatica por MK, n teve como n lembrar rs

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    3. Pensei mais em Street Fighter, mas Mortal Kombat realmente faz mais sentido aqui! rs

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  7. Games e terror... sim, este blog está me surpreendendo positivimante a cada nova postagem. Parabéns, Karen. A cada conto, vejo que cada um de nós apresenta um estilo próprio, mas muito bom. Gostei demais do conto e a transição entre as realidades ficou show.
    Quero ver como ficará o e-book no final do ano O.O
    It´s over.

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    1. Que ótimo que consegui surpreendê-lo, Franz! Obrigada! :D
      Uma das melhores coisas no nosso projeto é a diversidade dele, apesar de trabalharmos com o mesmo tema.
      Esse e-book vai ser um baita livro dos bons, isso sim!

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  8. Este comentário foi removido pelo autor.

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  9. Karen, realmente ficou ótimo.Obrigado por salvar minha madrugada, aterrorizando-a.

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    1. Obrigada, Marwin! :) Apareça sempre por aqui, a nossa missão é aterrorizar vocês leitores!

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  10. A agitação e turbulência me lembrou um sonho! Toda a agitação e loucura foram me carregando por extremos.

    Não sei se gostei ou não da narrativa, me pareceu bagunçada e desajeitada, mas não são assim os sonhos? Essa loucura sem inicio e fim onde tudo se transforma rapidamente? Entretanto ele mexeu comigo, me fez sentir, e isso é o máximo que um autor consegue. Ah! MEU DEUS, acho que estou sonhando ou delirando no teu texto! Isso é bom demais! Hhuashuashusahhashuashushuas...

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    1. Você parece que está no meio de um sonho! rsrsrrss
      Curtiu ou não o conto?
      Bem, eu te fiz sentir, e isso já me basta. :D

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    2. Curti demais! A bagunça é exatamente igual a um sonho, mas principalmente mexeu comigo. Com minhas emoções. Isso é o máximo de uma história: Emoção!

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    3. Que demais!!!!! :D
      Obrigada!!! Escutar isso é o melhor que um escritor pode ouvir.

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  11. Este comentário foi removido pelo autor.

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